CARACTERIZAÇÃO DOS PACIENTES QUE PROCURAM ATENDIMENTO NO PRONTO SOCORRO DA SANTA CASA DE CAPÃO BONITO

Nilton Soares de Lima

1)     RESUMO

Este trabalho caracterizou os pacientes que procuram atendimento no Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito, no período de 7 dias, no mês de novembro de 2010. O objetivo geral foi traçar um perfil da população que procura atendimento no Pronto Socorro, enfatizando aspectos sócio-econômicos e de saúde. A pesquisa foi baseada em um estudo transversal que pretendeu identificar as principais queixas de saúde da população através de um questionário, aplicado pessoalmente pelos responsáveis do acolhimento (recepção e/ou pré-consulta de enfermagem) na Unidade de Pronto Socorro, no momento do primeiro atendimento, a todos os usuários que buscaram o serviço. Foram analisados aspectos como queixa principal, município de domicilio, faixa etária, sexo, situação de emprego e tipo de seguro-saúde. Os resultados demonstraram que os pacientes procuram o serviço, por ser a única “porta aberta” em emergência da região, sendo que na maioria das vezes não encontraram atendimento em outras unidades de saúde, mesmo para atendimentos primários.

Palavras Chave: 1. Serviços médicos de emergência 2. Serviços de saúde 4. Perfil de saúde.

2)     INTRODUÇÃO

                Reconhecido há muitos anos como de grande importância para reduzir a morbidade e mortalidade, o fácil acesso aos serviços de saúde representa a possibilidade de um indivíduo que acredita ter um problema de saúde, poder consultar com um profissional que possa ajudá-lo a entender se o problema é sério o suficiente para necessitar de atenção adicional, ou se é um problema auto-limitado que não necessita de atenção especial (Starfield, 2002).

Independente da acessibilidade e da necessidade dos usuários aos serviços de saúde, estes são estruturados por meio de consultas, acesso a exames, consumo de medicamentos e realização de procedimentos. Esta organização, entretanto, nem sempre consegue atender a demandas manifestadas como respostas às questões socioeconômicas, más condições de vida, à violência, à solidão, à necessidade de vínculo com um serviço/profissional ou a busca de uma tecnologia que supostamente pode proporcionar melhor qualidade de vida (Cecílio, 2001).

Historicamente no Brasil, devido à dificuldade de Atenção Básica na prestação de serviços de saúde, a população acostumou-se a procurar os prontos socorros para a resolução dos mais variados problemas, tornando-o a principal porta de entrada da demanda reprimida ao Sistema Único de Saúde – SUS (Radis, 2010).

A defesa da Atenção Básica como principal porta de entrada muitas vezes não encontra referência no modo como a população utiliza as redes de serviços de saúde do SUS, com uma tendência, relatada por muitos gestores municipais, de procura pelos prontos socorros como porta de entrada preferencial. Tal situação, analogicamente inverte a “pirâmide” de atenção, onde o uso de serviços terciários como porta de entrada, compromete a eficácia, a efetividade e a eficiência de todo o sistema (Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, 2010).

Vasta literatura publicada sugere que características sócio-demográficas são importantes no entendimento de porque os pacientes procuram os prontos socorros e atendimentos emergenciais (Moore l; Deehan A;, 2009).

Existem hipóteses que tentam explicar os motivos da procura aos prontos- socorros. Alguns estudos apontam para fatores sócio-econômicos como indicadores importantes em re-consultas, como: tipo de moradia, ingestão de bebida alcoólica, drogas ilícitas e problemas psiquiátricos, que estão associados com a demanda de utilização dos serviços (Olmos RD, 2009).

Mundialmente, há mais de uma década, observam-se prontos-socorros lotados, devido a um deslocamento da população em direção a estes serviços, configurando-os como prestadores de atenção primária de assistência à saúde e, não de fato, destinado aos atendimentos de emergências, atribuição original dos mesmos (Barakat, 2004).

Um estudo caso controle irlandês mostrou casos frequentemente utilizavam os serviços do pronto socorro e também eram usuários freqüentes de outros serviços de saúde e sociais, pois se consultavam com seus médicos da atenção primária, utilizavam mais os programas de assistência social e permaneciam mais tempo internados no pronto socorro do que os controles (Olmos, 2009).

A procura de um serviço de saúde, levando em consideração a necessidade de momento do paciente, o mesmo leva em consideração diversos quesitos, como a localização do serviço prestado, a tecnologia disponível, o poder de resolutividade, o acolhimento, as condições de acesso, agilidade no atendimento, as experiências anteriores vividas pelo mesmo ou por parentes, bem como a referência e contra-referência no caso de necessidade da continuidade de tratamento (Ludwig, 2003; Traverso-Yépes, 2004).

Na possibilidade do paciente ser usuário do SUS, e levando também em consideração a restrição dos serviços,  ainda outras necessidades são observadas, citando como exemplo a questão da porta de entrada, sendo que costumeiramente Santas Casas e Hospitais tem o perfil de manter prontos socorros atendendo demandas de forma mais concentras e ágil. Apesar dos mesmos estarem sem lotados, com tempo de esperas elevado, ainda assim, leva-se em consideração o poder de resolutividade do serviço, pois geralmente os mesmos mantém atendimento em diversas especialidades, bem como dispõe de diversos recursos agregados no mesmo espaço, como consultas, exames laboratoriais, exames de SADT, encaminhamentos para internações referenciadas, diferentemente do ocorrido em locais que somente oferecem como recursos consultas básicas (Marques, 2007).

a)     O município de Capão Bonito

Capão Bonito está localizado na região sudoeste do estado de São Paulo, distando aproximadamente 220 km da capital, e conta com uma população estimada em 47.737 habitantes. As principais atividades econômicas do município são: agricultura, com a produção de milho, feijão, batata, indústria com a extração de cimento, granito e reflorestamento, além do turismo ecológico com parques naturais de relevância nacional. Possui um PIB per Capita de 9.315,27 reais anuais. A escolaridade média da população é o ensino fundamental incompleto (SEADE, 2010).

A estrutura da assistência de saúde pública atual do município conta com sete equipes do Programa Saúde da Família (PSF) e uma equipe do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), situados em regiões periféricas de maior risco, sendo responsáveis por aproximadamente 50% da cobertura populacional. O Centro de Saúde I no centro da cidade é a referência para pessoas não incluídas no PSF e moradores da zona rural que não possuem unidades em seus bairros. Sete unidades de saúde da zona rural são servidas com uma equipe médica volante semanalmente. As urgências e emergências, maternidade e cirurgias eletivas são atendidas na Santa Casa e Pronto Socorro local, além de atendimentos especializados na Casa da Gestante, Centro Odontológico, Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), Fisioterapia e Ambulatório de Especialidades (SMS, 2010).

b)     Pronto Socorro

Fundada em 1936 por uma comissão organizada pela sociedade local, que reconhecia a importância de possuir um hospital na cidade evitando a locomoção dos munícipes para outras cidades a fim de receber socorro médico, a Santa Casa de Misericórdia de Capão Bonito completou seus 73 anos com uma maternidade de alto nível, estrutura de 100 leitos, distribuídos nas clínicas médica, cirúrgica, obstétrica, pediátrica e ortopédica, onde atende aproximadamente 350 internações por mês, mantidas por uma equipe de 40 médicos, entre corpo clínico e plantonistas, totalizando 185 funcionários em nível técnico e de apoio (Santa Casa, 2010).

O Pronto Socorro, com atendimento médio de 6.000 pessoas por mês, foi aberto em 1982, em parceria com a prefeitura municipal visando o atendimento emergencial e de urgência à população de Capão Bonito e região (Santa Casa, 2010). Atualmente, é financiado pela Prefeitura Municipal através da Secretaria Municipal de Saúde de Capão Bonito, além de convênio firmado com Ribeirão Grande – SP, para o atendimento de urgência e emergências entre as 17 e 08 horas, sendo o gerenciamento realizado pela Santa Casa, pois sua provedoria é a representante de uma sociedade beneficente (SMS, 2010).

Citando ainda sobre o financiamento do setor, as dificuldades financeiras encontradas no setor são grandes; Noventa porcento dos atendimentos são realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Por lei, é obrigação do município a manutenção do Pronto Socorro.  Em Capão Bonito, a prefeitura não mantém um Pronto Socorro próprio, mas compra os serviços da Santa Casa para oferecer à população. Para manter o Pronto Socorro aberto são mantidos dois médicos plantonistas e funcionários técnicos e de apoio em cada jornada. Além disso, são mantidas retaguardas clínicas (plantão à distância), fazendo parte da equipe médica: Clínico, Pediatra, Ginecologista-Obstetra, Cirurgião Geral, Traumatologista-Ortopedista e Anestesista, sendo a maioria sob a forma de retaguarda.

Como a grande maioria dos serviços de emergência do país, a superlotação é o principal problema, pois o deslocamento da população em direção a estes serviços promove o pronto socorro a um prestador de atenção primária à saúde e não, de fato, destinado ao atendimento de urgência.

Diante do exposto, reconhecer as características da população que procura o pronto socorro é fundamental para a elaboração de políticas públicas de saúde que proporcionem uma qualificação do atendimento de urgência e emergência e um aumento do poder de resolução da atenção básica.

3)      OBJETIVOS

Identificar as características dos pacientes que procuram os serviços do Pronto Socorro, integrado à Santa Casa de Capão Bonito, enfatizando aspectos sócio-econômicos e de saúde.

4)      METODOLOGIA

A pesquisa foi baseada em um estudo transversal que pretendeu identificar as principais queixas de saúde da população através de um questionário (Anexo 1), aplicado verbalmente pelos responsáveis do acolhimento (recepção e/ou pré-consulta de enfermagem) na Unidade de Pronto Socorro, integrado à Santa Casa de Misericórdia de Capão Bonito, no momento do primeiro atendimento, a todos os usuários que buscaram o serviço.

O período de aplicação da pesquisa foi de sete dias, representados por uma semana típica de atendimento, compreendidos no mês de novembro de 2010.

Os dados obtidos foram tabulados e apresentados descritivamente, bem como os resultados foram discutidos conforme as informações adquiridas com a pesquisa.

A pesquisa foi realizada com a autorização da instituição Santa Casa de Misericórdia de Capão Bonito, emitida no dia 08 de novembro de 2010, (Anexo I) e sua publicação será condizente com a mais absoluta ética, com o compromisso de cumprir com os termos da resolução n° 196/96 do Conselho Nacional de Saúde e demais resoluções complementares, preservando dados restritos e atores envolvidos no sistema.

5)      RESULTADOS

                A Tabela 1 mostra maior número e porcentagem de usuários que utilizam os serviços de saúde dependendo da assistência pública através do SUS, representando 91,7% dos atendimentos, totalizando 646 pessoas. A assistência privada, caracterizada pelo atendimento remunerado e de convênios, representou apenas 8,3% da totalidade dos atendimentos.

                Tabela 1 – Número e porcentagem dos indivíduos atendidos segundo modelo de assistência à saúde, no Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito SP.

Assistência Médica

Número

%

Publica

646

91,7

Privada

22

3,2

Total

668

100,0

Fonte: Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito, 2010

                Conforme a Tabela 2, o sexo feminino foi o mais frequente, correspondendo a 54,3% do total.

                Tabela 2 – Número e porcentagem dos pacientes atendidos no Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito SP, segundo sexo.

Sexo

Número

%

FemininoMasculino

363

305

54,3

45,6

Total

668

100,0

Fonte: Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito, 2010.

Verifica-se na Tabela 3, que 87,1% dos usuários entrevistados referenciaram o domicilio no município de Capão Bonito. Ribeirão Grande, por possuir convênio de atendimento a urgências e emergências com a Santa Casa, representou 5,5% dos usuários do pronto socorro, ficando os municípios de Buri e Guapiara com pequenas porcentagens de utilização.

                Tabela 3 – Número e porcentagem dos pacientes atendidos no Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito SP. segundo o município de domicilio dos usuários.

Município

Número

%

Capão BonitoRibeirão Grande

Buri

Guapiara

Outros

Não informou

582

37

12

07

19

11

87,1

5,5

1,8

1,0

2,8

1,6

Total

668

100,0

Fonte: Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito, 2010.

                Nota-se na Tabela 4 a maior freqüência na faixa etária de 18 a 29 anos com 25,3% dos casos e entre 30 e 44 anos representando 20,6% do total, porém, vale destacar a grande quantidade de menores de idade na faixa etária do 0 aos 11 anos que foram atendidos (17,9%), pois para a efetivação de seu acesso, normalmente apresentam-se acompanhados dos pais ou responsáveis, causando grande acumulo de pessoas nas áreas de espera, além da ansiedade natural em priorizar o atendimento. Os pacientes maiores de 60 anos que utilizaram os serviços, classificando-se como a quinta faixa mais elencada entre os pesquisados.

                Tabela 4 – Número e porcentagem dos pacientes atendidos, no Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito SP, segundo faixa etária.

Faixa Etária

Numero

%

 0 |– 1112 |– 17

18 |– 29

30 |– 44

45 |– 59

60 e +

Não informou

120

57

169

138

89

78

17

17,9

8,5

25,3

20,6

13,3

11,6

2,5

Total

668

100,0

Fonte: Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito, 2010.

                Na Tabela 5 pode-se observar que 166 entrevistados estavam trabalhando com remuneração e possuíam suas carteiras assinadas (24,8%), seguidos por menores de idade e estudantes com 164 casos (24,5%) e desempregados com 140 (20,9%). Somando os trabalhadores formais e informais, 48,2% das pessoas que foram atendidas no Pronto Socorro durante a realização da pesquisa possui remuneração.

                Tabela 5 – Número e porcentagem dos pacientes atendidos, no Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito SP, segundo a situação ocupada no mercado de trabalho.

Ocupação

Número

%

Carteira AssinadaEstudante/Menor

Desempregado

Trabalho Informal

Aposentado

Não informou

166

164

140

116

41

41

24,8

24,5

20,9

17,3

6,1

6,1

Total

668

100,00

Fonte: Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito, 2010

                A Tabela 6 mostra que 76,3% dos entrevistados relataram que não possuem doenças associadas ao motivo principal da procura pelo atendimento de saúde. Portadores de hipertensão arterial, doenças respiratórias e diabetes apresentaram pequena proporção nos casos de doenças associadas, somando juntos apenas 13,9% do total dos pesquisados. A referência a outras patologias associadas aos sintomas que motivaram as pessoas a procurarem o Pronto Socorro foi observada em 9,1% dos entrevistados.

                Tabela 6 – Número e porcentagem dos pacientes atendidos, no Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito SP, segundo o relato da presença de doenças associadas.

Doença Associada

Número

%

Não possuiHipertensão

Respiratória

Diabetes

Outras

Não informou

510

42

40

11

61

04

76,3

6,2

5,9

1,6

9,1

0,5

Total

668

100,0

Fonte: Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito, 2010.

A tabela 7 classificou as principais queixas dos usuários no acesso ao serviço do Pronto Socorro e apresentou como grande motivo, situações acidentais, como trauma, fraturas, quedas, torções e queimaduras, com aproximadamente 14,5% dos casos.                Problemas respiratórios (11,9%), sintomas como febre (11,3%), e dores gerais pelo corpo (8,9%)também foram queixas frequentes. Verifica-se ainda que 8,0% das pessoas, procuraram o atendimento para retorno em consultas, pós-operatórios, aplicações de medicamentos, curativos entre outras consultas de especialidades.

                Tabela 7 – Número e porcentagem dos pacientes atendidos, no Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito SP, segundo a queixa principal relatada quando do acesso ao serviço.

Queixa Principal

Número

%

Acidentes geraisProblemas respiratórios

Febre

Dores no corpo, membros e coluna

Retorno / pós-operatório

Intercorrências da gestação

Náusea, vômito e tontura

Dores abdominais – gástricas

Dores de cabeça

Agressões

Problemas circulatórios

Renais e bexiga

Psicológicos (nervoso)

Acidentes com animais ou insetos

Alergias

Doenças infecto-contagiosas

Dores de ouvido

Afecções dermatológicas

Convulsões

Hemorragias

Intoxicação

Não Informou

97

80

76

60

54

54

44

42

38

13

13

12

11

11

11

09

07

06

06

04

03

17

14,5

11,9

11,3

8,9

8,0

8,0

6,5

6,2

5,6

1,9

1,9

1,8

1,6

1,6

1,6

1,3

1,0

0,9

0,9

0,6

0,4

2,5

Total

668

100,0

Fonte: Pronto Socorro da Santa Casa de Capão Bonito, 2010.

6)     DISCUSSÃO

Em relação ao sexo mais representativo no atendimento do Pronto Socorro demonstram que foi o feminino, correspondendo a 54,3% do total, confirmando dados encontrados similarmente em pesquisas anteriores, onde foi observada leve superioridade no sexo feminino (Barakat, 2004).

Em relação à procedência dos pacientes atendidos, verifica-se que 87,1% dos usuários entrevistados referenciaram o domicilio no município de Capão Bonito, seguido pela cidade de Ribeirão Grande, que possui convênio de atendimento a urgências e emergências com a Santa Casa e representou 5,5% dos usuários do pronto socorro. Devido ao entroncamento de importantes rodovias que ligam o sul do país ao estado de São Paulo, 19 das 668 pessoas que procuraram o pronto socorro no período da pesquisa informaram seu domicílio em cidades que ligam os eixos citados.

Os resultados deste estudo demonstram que a maior freqüência na faixa etária é de 18 a 29 anos com 25,3% dos casos, e entre 30 e 44 anos representando 20,6% do total. Porém, vale a pena destacar a grande quantidade de menores de idade na faixa etária de 0 a 11 anos que foram atendidos (17,9%), pois para a efetivação de seu acesso, normalmente apresentam-se acompanhados dos pais ou responsáveis, causando grande acúmulo de pessoas nas áreas de espera, além da ansiedade natural em priorizar o atendimento. Outro dado significativo é a pequena proporção de maiores de 60 anos que utilizaram os serviços, classificando-se apenas como a quinta faixa mais elencada entre os pesquisados, salientando que os resultados desse quesito, foram diferentes do encontrado em estudos anteriores similares (Jacobs, 2005).

Em relação à ocupação dos pesquisados, observou-se que 24,8% possuíam trabalho fixo, bem como carteira assinada, seguidos por menores de idade (24,5%), estudantes (24,5%) e desempregados (20,9%). Somando-se os trabalhadores formais e informais, 48,2% das pessoas que foram atendidas no Pronto Socorro durante a realização da pesquisa exerciam atividade remunerada.

Inúmeras pesquisas (Northington, 2005; PENAD, 2009) relacionam a procura por serviços de saúde, sejam eles de urgência e emergência ou de atenção primária, a fatores socioeconômicos e, de acordo com o resultado referido, mais de 45% dos usuários do pronto socorro de Capão Bonito não são economicamente ativos, sendo o desemprego um fator preocupante neste contexto.

Neste estudo, quando se buscou o real motivo da procura dos pacientes pelo pronto socorro, pode ser observado que 76,3% dos entrevistados relataram que não possuem doenças associadas ao motivo principal da procura pelo atendimento de saúde. Portadores de hipertensão arterial, doenças respiratórias e diabetes, apresentaram pequena proporção nos casos de doenças associadas, somando juntos apenas 13,9% do total dos pesquisados. A referência a outras patologias associadas aos sintomas que motivaram as pessoas a procurarem o Pronto Socorro foi observada em 9,1% dos entrevistados, sendo o resultado deferente do encontrado em outros estudos (Peixoto, 1990).

Notadamente, poderia se questionar se determinadas ocorrências incluídas no estudo, tais como hipertensão, diabetes e asma seriam situações de crises ou descompensação de doenças crônicas as quais transcenderiam, no momento da ocorrência, o papel assistencial das Unidades Básicas de Saude e Programas de Saude de Família. Esse questionamento tem certa razão, mas estrategicamente não deveria ser aceito, ao se pensar em uma mudança da atenção básica (Sala, 1998).

Ao avaliar o estudo de Northington e colaboradores, em Pittsburg nos EUA, observa-se que 27,1% da população costumam buscar o serviço de emergência; já em relação ao nosso estudo, pode-se observar que as principais queixas apresentadas pelos usuários no acesso ao serviço do Pronto Socorro foram situações acidentais como trauma, fraturas, quedas, torções e queimaduras, correspondendo a aproximadamente 14,5% dos casos. Tais situações são consideradas emergências e urgências e realmente devem fazer parte das principais atribuições de um pronto socorro, mostrando pouca diferença em relação ao estudo norte-americano (Worthington, 2005).

Problemas respiratórios (11,9%), sintomas como febre (11,3%), e dores gerais pelo corpo (8,98%), também foram bastante relevantes nas queixas durante o período da pesquisa, sendo o resultado deferente do encontrado em outros estudos (Peixoto, 1990).

Um aspecto a ser destacado foi o grande número de gestantes que procurou o Pronto Socorro, visando o atendimento de intercorrências gestacionais e sintomatologias, correspondendo à cerca de 8,1% do total de pacientes atendidos.

Dores abdominais, gástricas, Dor na bexiga, alergias, entre outros foram os demais fatores que levaram à procura pelo atendimento de urgência, além de alterações psicológicas, nervosas e circulatórias, mostrando que o pronto socorro ainda é um grande refúgio aos cidadãos com necessidades de saúde variadas.

Podemos observar também que 8,0% das pessoas procuraram o atendimento para retorno em consultas, como pós-operatórios, aplicações de medicamentos, curativos e até mesmo consultas com médicos em suas mais diversas variedades. Estes casos poderiam estar sendo referenciados às redes de unidades de saúde, facilitando o deslocamento dos pacientes para regiões mais próximas de suas residências.

Tais situações são consideradas emergências e urgências e realmente devem fazer parte das principais atribuições de um pronto socorro.

7)     CONSIDERAÇÕES FINAIS

                As principais demandas do Pronto Socorro foram as situações de risco para os pacientes, onde as principais queixas eram agudas e envolviam desconforto físico, compondo uma sintomatologia característica de processos terapêuticos de atenção básica, além de aspectos emocionais e de necessidades consideradas como não urgentes. A busca de atendimento complementar ao recebido em outros serviços e o vínculo com o pronto atendimento também são significativos.

Doenças crônicas associadas não são os principais motivos da procura dos usuários ao serviço, sugerindo que seu tratamento pode ser realizado nas unidades de saúde das redes locais.

As queixas trazidas pelos usuários vinham moldadas segundo as expectativas por eles criadas nas relações sociais, pois a busca pelo atendimento, segundo os dados coletados, era tanto para necessidades agudas como não-agudas, mas que, no momento, traziam limitações e desconforto.

O deslocamento da população de regiões distantes do município e de outros para a realização de procedimentos de rotina de atenção primária pode ser interpretado como uma falta de acesso aos serviços mos locais de residência, porém, os usuários certamente procuravam os serviços não apenas pela localização geográfica, mas pela qualidade do serviço e a garantia no acesso.

Enfim, foi constatado que a oferta dos serviços do Pronto Socorro, na maioria das vezes, foi direcionada ao ato agudo da queixa dos usuários, não ampliando o foco da atenção para um histórico clínico. A porta de entrada para o sistema foi obtida, independente da gravidade dos casos. Entretanto, a garantia da agilidade de encaminhamentos nos casos graves como internações e referências deve ser prioridade para a consolidação das diretrizes do Sistema Único de  Saúde- SUS, que prevêem integralidades das ações e serviços de assistência à saúde.

Diante do contexto ora apresentado, podemos elencar duas características que mais chamaram atenção no estudo:

Conforme demonstrado no quadro de queixa principal, onde ficou evidenciado que a maioria dos pacientes atendidos no pronto socorro não são atendimentos de urgência e/ou emergência, conclui-se que o municio apresenta falhas graves na sua rede básica de atendimento, ou pode-se concluir também que não é feita uma triagem adequada no Pronto Socorro, para referenciar os pacientes à sua rede de atendimento preferencial.

Os resultados de análise de demanda no pronto-socorro, ainda que não realizados com o objetivo específico de verificar um possível relacionamento desta demanda com a situação e condições de organização dos serviços básicos de saúde, tem apresentado como conclusões:

“os dados levantados indicam que o estrangulamento de serviço de emergência se deve à desestruturação dos serviços básicos” (Martins NGR, 1992); o pronto socorro estudado “não é apenas um serviço de urgência, mas também, uma ‘válvula de escape’ dos serviços públicos de saúde…” (Salla J, Ghellar M, Kaufman Ml, 1989); “um considerável número de pacientes poderia ter sido atendido nas respectivas unidades básicas, sugerindo a sua excluência dos níveis primário e secundário” (Gutierrez MR, Barbieri MA. 1998).

 

Destacamos também a questão da situação da ocupação dos pacientes no mercado de trabalho, juntamente com o modelo de assistência aos pacientes, onde fica evidenciado que a maioria não tem carteira assinada e muito menos plano de saúde. Levando em consideração que o município de Capão Bonito tem um dos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos do estado de São Paulo, 0,663 (PNUD 2010), pode-se concluir que a questão da saúde pública no município e a procura pelo Pronto Socorro pode ser ligada ao alto índice de desemprego observado na cidade de Capão Bonito.

7)     ABSTRACT

This study aimed to describe patients who looked for  treatment at the Emergency Room of the Santa Casa of Capão Bonito, in a period of seven days,during  November 2010. The overall objective was to draw a profile of the population seeking care at the emergency room, emphasizing socioeconomic and health characteristics. A cross-sectional study was carried out, identifying the main health complaints of the population through a  personal interview conducted by professionals working at the reception or during  the pre-nursing consultation in the Emergency Unit. TheI interview was conducted during the first consultation to all individuals entering the Emergency Room Parameters such as main complaint, city of residence, age, gender, employment status, and type of health care insurance were analyzed. The results showed that patients seek the service because the Emergency Room is seenas the only “open door” in this region, and in most cases it is not possible to find assistance in other healthcare units, even for primary care

Keywords: 1. Emergency medical services 2. Health services 4. Health profile.

8)     REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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